Pela volta do mata-mata!

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Diante de uma final de campeonato como a que vivenciamos hoje, mais uma vez venho manifestar repúdia com pontos corridos, uma fórmula em que os dois postulantes ao título jogavam, um contra um time que lutava pra não cair e o outro enfrentava um time que simplesmente só pensava em ir à praia depois do jogo. Somente com uma fórmula dessas o torcedor de Flamengo aplaude o Grêmio (adversário) e faz com que torcedores do Grêmio torçam por flamengo. Somente esta fórmula faz colorados vibrarem com um gol do Grêmio, muito mais do que com gol do seu próprio time…

Em diversos comentários e postagens que fiz neste blog, eu demonstrei a minha inconformidade em relação ao mercantilismo que tomou conta do esporte. Os interesses financeiros estão acima de tudo. Patrocinadores, televisão e empresários dominam amplamente o futebol, manipulando tudo, desde escalações de determinado jogador, convocações tendenciosas, até mesmo manipulando resultados de jogos e corrompendo arbitragens. E enquanto eu puder, criticarei esse absurdo, esse lado negro do futebol.

E, diante desse ambiente que tomou conta do futebol, a fórmula do campeonato tinha que mudar, para acompanhar e fomentar a influência monetária no esporte. Esta fórmula dos pontos corridos se encaixa com perfeição nesta concepção.

Porque nesta fórmula, sagra-se campeão não o melhor time, aquele mais azeitado, mais entrosado, aqueles 11 jogadores que são imbatíveis. Algo como ocorre no futebol amador, semelhante àquele time que provavelmente muitos dos apaixonados por futebol já fizeram parte e têm fotos guardadas nas suas casas.

Meu pai, por exemplo, certa vez, me mostrou uma foto do time dele do Banco do Brasil (de futsal, na época, futebol de salão), logo que a agência foi fundada em Bom Jesus. Eu conheci todos os jogadores daquele famoso time, que durou anos. Cada um sabia onde o outro estava, sem olhar. Ganhavam todos os campeonatos que jogavam. Enfim, me refiro à magia do futebol. Mas o futebol amador era apenas o espelho do profissional.

Essa magia do futebol prevaleceu durante muito tempo, também no futebol profissional. Para ficar em alguns exemplos, relembro o Internacional dos anos 70, o Flamengo dos anos 80 e o Grêmio dos anos 90. Eram verdadeiros timaços, fechados, azeitados. Imbatíveis nas suas épocas.

Mas ouso dizer que, na atual fórmula, não teriam sido campeões brasileiros. Porque eram ‘apenas’ excepcionais times de futebol. Hoje, se alguém acha que um time é campeão, está redondamente enganado. Quem é campeão é a empresa de futebol. Ganha a instituição que tiver a melhor infra-estrutura, o melhor centro de treinamento, o melhor preparador físico e, sobretudo, o melhor elenco. Por elenco, não se lê apenas os 11 jogadores, mas principalmente, reservas e segundos reservas do mesmo nível. As chamadas “peças de reposição”.

Reflitam o absurdo que é esta expressão, dentro do conceito de futebol que cada um de nós idealiza! Convido agora os amigos a pensarem como está distorcida a realidade em geral: foi sucesso na internet o tal de “cartola FC”, algo que tenho ojeriza e desconheço as regras, mas me parece que o usuário é uma espécie de empresário, que ganha pontos quando o seu jogador vai bem na rodada… ou ainda, jogos de videogame cuja temática é futebol, mas não se joga o jogo, se controla o time e suas transações de jogadores, objetivando ganhar mais para comprar os melhores jogadores. Um jogo de videogame em que você é uma mistura de presidente do clube com empresário…

Tudo isto se coroa em uma fórmula fétida como esta, de pontos corridos. Bradam os seus defensores que, nesta fórmula, todo jogo é uma final, que as arrecadações (!!) de bilheteria são maiores e que é a mais justa, pois o time que mais ganha é o campeão.

Contraponho todos estes argumentos. Primeiro, a fórmula é anacrônica, pois diante do calendário futebolístico assoberbado como temos, nenhum time (exceto aquelas empresas que têm “peças de reposição” suficientes) tem condições de jogar com força máxima sempre.

Ademais, especialmente no fim desses campeonatos, as ditas “finais múltiplas” ocorrem, não raro, com enfrentamentos entre os postulantes a título contra times sem motivação e interesse nenhum no campeonato, e até mesmo já rebaixados. Ocorrem duelos de Davi x Golias, cuja graça é zero, a não ser pela expectativa do time desinteressado – e provavelmente falido – de receber dinheiro dos interessados para que ganhem seus jogos, a conhecida falcatrua denominada de “malas-branca”, que é, a rigor, o único “grande trunfo” desta fórmula.

Segundo. As arrecadações de bilheteria não são o foco principal do esporte, a não ser nesta concepção mercantilista. E também não sei se isso é verdade. Hoje, por exemplo, no jogo Sport (rebaixado) e Inter (postulante ao título), as arquibancadas estavam vazias. No mesmo dia, Goiás (sem nada a fazer) x São Paulo (postulante ao título), em que pese o jogo ser em Goiânia, a torcida são-paulina era maior. Portanto, ainda quando se vê um acréscimo de espectadores, esta realidade freqüentemente é distorcida, pois se o campeonato é de turno e returno, isto existe para conferir paridade na disputa, ou seja, permitir que os times se enfrentem uma vez fora de casa e uma vez em casa, com o apoio da sua torcida. Isto já quebra parcialmente o argumento de justiça, que passo a tratar.

Em terceiro, lugar, como adiantei, esta fórmula NÃO é a mais justa. É muito superficial dizer que quem ganha mais é o melhor. Bueno, aqui daria para escrever três dias para contrapor. Mas vou procurar ser breve e me valer de uma noção de justiça que é dada na Universidade. Justiça é um conceito amplíssimo e que pode – e deve – ser encarado pelos mais diversos ângulos. No caso de competições esportivas em geral, a justiça se estabelece, sobretudo, dentro do ideal de igualdade.

E igualdade, ensina-se na academia, não significa apenas estabelecer uma regra e dela ficar eqüidistante. É preciso “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais”. Logo, em uma competição, deve-se, sem dúvida, existir uma fórmula que preveja o confronto direto entre todos, se possível, em dois turnos ou, se apenas em um turno, mediante sorteio. Mas isto só não basta, pois aí somente se privilegiou a regularidade, o time com maior número de “peças de reposição”. Se esquece do principal em um campeonato, que é a competitividade.

Enfim, somente se privilegia quem tem mais dinheiro. Mas será que este é o melhor time? Se a resposta for positiva, por qual razão em 2008 o São Paulo (campeão) seria melhor que o Grêmio (vice) se ele perdeu os dois jogos contra o Tricolor gaúcho?

Me responderiam os lógicos superficiais que o São Paulo teve mais regularidade. Ora, o que é regular está na média. Quem vive na média é mediano, não o melhor! Para ser melhor, o 1° tem que ganhar do 2°. Futebol nem sempre tem lógica, mas é preciso buscar a justiça sempre.

E é aí que adentra a concepção integral de igualdade e justiça: tratar desigualmente os desiguais. Não se pode, sob o argumento da regularidade, colocar todos os times no mesmo balaio. Porque são desiguais. E é preciso dar tratamento desigual para que se atinja a questão da competitividade do time, não só da regularidade. São Paulo e Grêmio, para ficar no exemplo do campeonato brasileiro de 2008, possuíam uma abissal diferença de ‘plantel’ (outra expressão mercantilista do futebol), mas o time do Grêmio era mais azeitado, mais entrosado, mais aguerrido, mais vibrante do que o São Paulo. E futebol é isso! É feito de 11 jogadores nas quatro linhas.

Logo, a justiça no futebol depende de uma fórmula híbrida, como era a do mata-mata! Os times que vencem mais se classificam para um octogonal final, em que o melhor tem o privilégio de jogar contra o pior destes oito classificados. Somente assim se chega à justiça e equilíbrio entre equipe poderosa e time entrosado. Nesta fórmula, não ganha o mais regular, mas o mais competitivo dentre os regulares. Ora, se é uma competição, o próprio nome afasta a possibilidade de o mais regular ser considerado o melhor.

Por isso, defendo a volta do mata-mata, com estas observações: os dois melhores da primeira fase garantem as duas primeiras vagas na libertadores. Isto gera o interesse em ganhar todos os jogos, preservando o lado bom do sistema de pontos corridos. E os oito melhores se enfrentam, sendo o primeiro contra o oitavo e assim sucessivamente.

Ora, se o time que fez mais pontos realmente é o melhor, ele ganharia dos demais, pelo que a justiça não se abala nesse sistema. Pelo contrário, ela se reforça, se perfectibiliza dentro do critério de “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais”.

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