CAMPEONATO GAÚCHO – parte 2 – história do primeiro campeão.

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Semana passada eu decidi escrever mais sobre o nosso campeonato gaúcho, que entendo ser subvalorizado. Já foi chamado de cafezinho, cede espaço para outras competições mas, ao final das contas, é o primeiro título que um clube grande tem de vencer no ano. E todo bom gaúcho cultua o pago. Portanto, valorizemos mais o triunfo nos nossos domínios, para poder saborear melhor as glórias longe do nosso território.

Bueno, hoje me dedico a falar do primeiro campeão gaúcho, o Grêmio Esportivo Brasil, o nosso querido Brasil de Pelotas. Inicialmente chamado de Grêmio Sportivo Brasil, o clube foi fundado em 07/09/1911. E a história dessa instituição tem curiosidades muito interessantes.

A primeira delas está nas cores. Em função da data (comemorativa da independência do País), as cores do clube inicialmente foram verde e amarelo, semelhante às do E.C. Pelotas. Este fato gerou muita polêmica à época. Reza a história que este é o fato gerador da grande rivalidade que existe entre os clubes. Para resolver o impasse que se formou, o G.E.Brasil resolveu trocar de cores. Assim, como o Pelotas inspirou-se nas cores do Clube Caixeral (azul e amarelo) para seu fardamento, o G.E.Brasil resolveu adotar as cores do Clube Diamantinos (vermelho e preto), mudando então as cores do fardamento.

Outra curiosidade é a forma como o clube foi fundado. Tudo começou após uma divergência entre dirigentes e jogadores do Sport Club Cruzeiro do Sul, que era dirigido e mantido por funcionários da Cervejaria Haertel. O campo do S.C. Cruzeiro do Sul situava-se ao lado do terreno da cervejaria. Certa feita, simpatizantes do clube estavam cercando o campo, quando viram chegar alguns jogadores do S.C.Cruzeiro, que foram direto para o campo, treinar.

Irritados, os colaboradores determinaram que os jogadores parassem o treino e fossem ajudar no trabalho. E os jogadores acabaram indo embora, frustrados. Mas dois desses rapazes, mais irresignados com a intolerância dos colaboradores que faziam a cerca, enquanto iam embora, caminhavam e discutiam inconformados a situação, até que sentaram em um terreno, próximo ao local onde hoje se situa o Estádio Bento Freitas, sede do clube, e confabularam a possibilidade de fundar um novo clube.

Esses dois rapazes eram Breno Corrêa da Silva e Salustiano Brito. Então, foi feita uma reunião de fundação do clube, no dia 07/09/1911, na Rua Santa Cruz, n° 56, residência do Sr. José Moreira de Brito, pai de Salustiano. Estava fundado o novo clube, cujo nome, além das cores inicialmente escolhidas, tinha inspiração patriótica.

O Brasil de Pelotas é reconhecido por sua garra e pelo fanatismo da torcida Xavante. A torcida se autodenomina uma nação guerreira, com sangue nos olhos. Outro dado interessante é que o Brasil de Pelotas tem a maior (segundo site oficial da FGF) e mais fanática torcida do interior do Estado.

E o estádio Bento Freitas vira um caldeirão vermelho e preto, um verdadeiro alçapão, onde frequentemente a pujança da torcida equilibra a diferença técnica para com os clubes maiores e transforma em verdadeiras batalhas os jogos lá disputados.

O clube possui títulos de importância, como o primeiro campeonato gaúcho, em 1919, os títulos de campeão regional (fase do gauchão, que como referi quarta passada, era subdividido em regiões até 1960) nos anos de 1926, 1927, 1941, 1946 e 1950. Foi Vice-Campeão gaúcho em 1953, 1954, 1955 e 1983; ainda fora o campeão do interior, em 1954, 1955, 1963, 1964, 1968 e 1984; tem ainda, entre outros títulos, 27 campeonatos citadinos e ainda foi terceiro colocado no campeonato brasileiro de 1985.

O valente Brasil de Pelotas ainda participou da série A do campeonato brasileiro nos anos de 1978, 1979, 1984 e o de 1985, na melhor posição alcançada por um clube gaúcho, tirante a dupla Gre-Nal. Em 1920, os pelotenses ainda participaram de uma competição nacional de elite, o torneio dos campeões da CBD, ficando em terceiro lugar.

Do Brasil de Pelotas saiu o primeiro jogador de times gaúchos convocados para a Seleção Brasileira. Trata-se de Alvariza, um dos destaques da final do gauchão de 1919. Ele foi convocado para o Sul-Americano de 1920, tendo marcado gol logo na estreia, e contra os donos da casa, os chilenos. Alvariza haveria de jogar todas as partidas, inclusive contra Uruguai e Argentina, tendo sido artilheiro da seleção naquele ano. Foi recebido em Pelotas como herói.

Ainda, Alvariza participaria de um jogo histórico contra a Argentina, partida disputada com apenas 8 jogadores para cada lado, devido ao fato de que alguns jogadores se recusaram a entrar em campo após atitudes racistas de parte da imprensa argentina, que fez charges de jogadores da seleção como macacos.

Seguindo nas curiosidades, o Brasil-PE participou, em 25/12/1915, em Pelotas, do primeiro jogo de futebol noturno no país. A iluminação artificial começou nos gramados do Brasil durante um jogo deste histórico clube gaúcho. Outra coisa interessante é que, em 1983, Felipão treinou o clube, sendo que lá conheceu o seu colega Murtosa, de onde se tornaram inseparáveis profissionalmente.

Já o apelido Xavante decorre de outro fato histórico: durante um clássico Bra-Pel, em 1946 no estádio adversário, a torcida invadiu o campo, em fato semelhante a um famoso filme da época, intitulado “A invasão Xavante”. O Brasil virou o jogo e ganhou por 5×3, conquistando mais um título citadino. Este fato, aliado á circunstância de que as cores do clube são as mesmas utilizadas pelos índios Xavantes, deu origem à alcunha que é sinônimo de bravura e resistência.

Entretanto, apesar da gloriosa história do clube, os fatos recentes não são de títulos, mas de sofrimento, por conta do acidente ocorrido com o ônibus da delegação em 15/01/2009, em Canguçu. O infortúnio provocou a morte do preparador de goleiros Giovani Guimarães, do zagueiro Régis e do atacante uruguaio Claudio Millar, o maior artilheiro da história do clube, com 111 gols (outros artilheiros de destaque foram Gilson, goleador do gauchão de 1992 – 13 gols e Proença, craque da final de 1919 do primeiro campeonato gaúcho, com 03 gols).

Este triste ocorrido, além de marcar para sempre a história do clube, ainda provocou uma grande desestruturação na base da equipe, com a perda dos jogadores e o completo desequilíbrio emocional. Chegou-se a cogitar a não participação do clube no estadual de 2009, mas o Xavante, guerreiro como sempre, enfrentou a batalha, sabendo ser ela potencialmente devastadora. E foi. O time haveria de jogar 08 partidas em 15 dias e apesar de contar com apoio de clubes e jogadores de fora, inclusive com o lendário goleiro Danrlei sob a meta, o descenso foi inevitável e infelizmente o clube disputará a série B do Gauchão de 2010.

Mas o rebaixamento foi honroso porque, mesmo dilacerado, o Brasil honra este torrão gaúcho: disputou o campeonato e só se entregou quando não tinha mais o que fazer. Mas foi depois de muita luta; e caiu ajoelhado, olhando pra frente, simbolizando o mais atávico e honroso espírito gauchesco de garra; honrou os gaúchos de verdade e também o nome e tradição Xavante. Força, Brasil! Quero te ver em 2011, no ano do teu centenário, de volta ao lugar de sempre, na elite do futebol gaúcho.

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