Pelo fim do patrocínio nas camisetas

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Que saudade dos tempos em que o esporte não era dominado pelo dinheiro. Aliás, dinheiro é algo que só me apavora. Me apavora não tê-lo e me apavoraria ter demais. Porque o dinheiro traz consigo o egoísmo, a mesquinhez e, por consequencia, a corrupção.

Estou acostumado a ver corrupção nos bancos, nos órgãos estatais em geral, no governo, na política (aliás, no Brasil de hoje, infelizmente, política e corrupção são quase sinônimos). Sobre esse tema, aliás, eu sempre digo: nós gaúchos já nos erguemos em espadas por muito menos. Está faltando brio, não para lutar com armas em punho, mas para colocar ética nesse país.

Mas o que mais me assusta é ver que o dinheiro corrompe as coisas mais puras também; corrompe mulheres (homens há muito foram corrompidos, nem são puros), corrompe estudantes, que trocam o sucesso no vestibular por um carro por alguma quantia; e corrompe também o esporte, que sempre foi uma ferramenta vital de lazer, entretenimento e integração de massas.

E isso já acontece há muito tempo, por isso não fiquei nem um pouco surpresso com esse bafafá que tá acontecendo na Fórmula 1. Ora, isso só veio à tona porque o Nelsinho Piquet perdeu o emprego. Se tivesse renovado o contrato, nada viria à tona, eles continuariam enchendo os bolsos e enganando os olhos inocentes dos torcedores.

Me refiro ao ‘escândalo’ em que Nelsinho Piquet teria batido deliberadamente seu carro, por ordem de Briatore, para forçar a entrada do Safety Car na pista e favorecer Fernando Alonso, que reabasteceria seu carro logo antes. Deu certo. O espanhol saiu em último lugar e chegou em primeiro.  Desde aquele dia até semana passada eu, inocentemente, enquadrei Fernando Alonso como um gênio do automobilismo, que conseguira uma façanha esportiva de ganhar uma corrida por uma equipe ruim, tendo largado em último.

Motivado por grande raiva, escrevo sobre este assunto lamentável e chato, que fustiga o esporte e, por isso, deve ser abordado e eliminado. E que não pode passar em branco. Todos merecem punição; equipe e pilotos da equipe. É assim que se formam ídolos hoje em dia? Então desisto. Larguei a F-1.

O futebol dá seus exemplos diários de escândalos de arbitragens, armação de jogos, ingressos para show da Madonna para juízes… jogadores convocados para valorizar seu passe… eu só não larguei o futebol porque sou muito fanático mesmo. Mas vou me dedicar mais a praticá-lo (mal e porcamente) do que acompanhá-lo.

Vou começar a fazer campanha para que o dinheiro perca importância. Precisamos resgatar a noção de que o foco do esporte é entretenimento e integração social, e não uma ferramenta de geração de lucro.

Vejam,a título de exemplo:  nós nos acostumamos a ver o patrocinador na camisa do clube, mas qual a sua utilidade? Eu não abri conta no Banrisul porque o Grêmio tem ele na camiseta. Tudo bem, eu não seria cego nem radical a ponto de não ver que o patrocínio é fundamental para as receitas dos clubes. Mas isso porque os clubes são culpados e também se tornaram reféns disso, já que o futebol é uma engrenagem totalmente dependente de dinheiro – de muito dinheiro. E ninguém mais controla isso.

Hoje, somente hoje, fui ver que o patrocinador estampado na camiseta do Milan, a Bwin, é uma empresa de jogos e apostas online. Não tenho indícios para julgar, a não ser minha consciência, mas esta não me deixa parar de pensar que existe por trás disso muito mais do que um ‘inocente’ patrocínio.

Mas como não quero só reclamar, eu sugiro o fim do patrocínio nas camisetas (que hoje já está até nos calções), como início do controle da situação. É preciso diminuir um pouco as cifras, para que os interesses precípuos do esporte voltem a ser entretenimento e integração social.

Não quero, entretanto, trazer de volta as mazelas dos tempos de romantismo futebolístico, em que havia um completo desaparelhamento e que atletas passavam fome. Quero o equilíbrio, o meio termo, algo que infelizmente está longe de ser a realidade.

Com o fim do patrocínio nas camisetas e outras medidas paulatinas, a longo prazo teremos um futebol condizente com a realidade, sem valores astronômicos e sem a poluição visual no uniforme. No uniforme do São Paulo, por exemplo, a logomarca da LG é maior que o escudo do time. Virou LGFC. Tchê, então o patrocinador é maior que o clube? Chomisco!

Tomara que os Rodeios não se tornem reféns desse consumismo. Daqui a pouco vai ter bombacha da Reebok, boina da Nike, bota da Puma e cavalo vai ter contrato de imagem. Ah, e a Adidas vai passar a fabricar as nossas facas 3 listras… Quanto mais conheço os homens, mais eu gosto dos meus cavalos…

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3 Respostas to “Pelo fim do patrocínio nas camisetas”

  1. Roberto Junior Says:

    Eu vou dizer uma coisa… que inveja. Gostaria muito de ter escrito este post.
    Gustavo Bartt, sem sacanagem, se um dia tu te candidatares a qualquer coisa, mesmo que for para síndico de prédio, eu voto em ti. Escreveste essa coluna pensando no lado esportivo, mas ela é o reflexo da sociedade moderna de consumo. Tudo acontece em função do dinheiro e quem tem mais pode mais.
    Cada vez mais a ética é valor raro nas relações humanas. Quando está envolvido dinheiro então a coisa vai para o ralo mesmo. Tu ainda preservas a intenção, que muitos diriam ingênua, mas eu defino como sincera e pura, de ver a competição prevalecer sobre os fatores econômicos. É a síntese do ideal Olímpico. E como faltam pessoas que pensam assim no nosso país.
    Entendi QUASE tudo, está bem explicadinho. MAS QUE DIABOS QUER CHOMISCO?!

    • Gustavo Says:

      Junique, fico envaidecido pelas palavras. Vindo de um cara que tem de sobra atributos de ética e seriedade, como tu, recebo como um baita elogio. Mas, como dizia meu avô, não me candidato a nada, porque quero morrer pensando que tenho prestígio, hehehe…

      Bem mencionado que quem valoriza ética, seriedade e pureza é visto como ingênuo. Li esses dias uma frase em um centro espírita (frequento e recomendo): não pensem que o bem não existe ou se perdeu. Quando o mal toma conta, isso é só aparência, porque o bem é tímido e o mal, audacioso.

      Por fim, CHOMISCO é uma expressão de surpresa, espanto, mas pode ser de escárnio também. É expressão gaudéria antiga, que ganhou fama na poesia de Jayme Caetano Braun, chamada Bochincho, num trecho que ele explica que escapou da morte numa peleya:

      (…)
      E foi ele que se veio,
      Pois era dele a pinguancha,
      Bufando e abrindo cancha
      Como dono de rodeio.
      Quis me partir pelo meio
      Num talonaço de adaga
      Que – se me pega – me estraga,
      Chegou levantar um cisco,
      Mas não é a toa – chomisco!
      Que sou de São Luiz Gonzaga!

      Meio na volta do braço
      Consegui tirar o talho
      E quase que me atrapalho
      Porque havia pouco espaço,
      Mas senti o calor do aço
      E o calor do aço arde,
      Me levantei – sem alarde,
      Por causa do desaforo
      E soltei meu marca touro
      Num medonho buenas-tarde!
      (…)

      No popular, chomisco substitui as expressões “porra!” “que merda!” “caralho!”, etc.

  2. mzerbes Says:

    É uma bela utopia, meu amigo Bartt. Mas para que isso acontecesse, e o Brasil não sucumbisse (mais ainda), seria preciso que esta medida tivesse início na região que mais gasta valores e lava dinheiro com o futebol: a européia. É de lá que tudo vem (esta frase ficou estranha, mas ficará mais clara). Na Europa o futebol foi criado, na Europa se tomam as decisões administrativas sobre o futebol, na Europa as regras são cambiadas, na Europa estão os maiores clubes e os melhores jogadores, na Europa se lida mais com o dinheiro…

    OBS 1: uma pena que não se trata de uma utopia… eu apoiaria esta ideologia, sem sombra de dúvidas, assim, o Brasil não perderia os seus VERDADEIROS craques…

    OBS 2: fiquei imaginando o gaudério se enraivecer e gritar CHOMISCO! (hahahahahaha… ia ser muuuuuuuuuuuuuito engraçado…)

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