NA CARA DO GOL

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A ARTE DA BOLA PARADA

Como ex-goleiro amador com 10 anos de serviços prestados na função de erradicar os gritos de gol, pessoalmente o momento mais tenso era nos lances de bola parada. Por não ter uma altura elevada (1,78 m) era vitimado por cruzamentos aparados por adversários do tamanho de postes ou por faltas direcionadas mortalmente no ângulo ( ou perto do ângulo, pois ninguém com 1,78m consegue chegar “onde a coruja dorme” numa goleira de futebol)  por cobradores habilidosos.

Específicamente nos cruzamentos a qualidade na saída do gol é importante para neutralizar este tipo de lance. Sair do gol é uma das qualidades mais difíceis de se trabalhar em um goleiro e é comum ver goleiros até de estatura muito elevada falhar em lances dessa natureza. São inúmeras variáveis no mesmo lance e o arqueiro tem míseros 3 ou 4 segundos para decidir o que fazer. E a preocupação aumenta quando o adversário é especialista neste tipo de jogada.

Falo do Grêmio, é claro. Apesar do rosário de limitações apresentadas pelo time, a ” força aérea tricolor” é de um eficácia invejável. Falta nas laterais do campo, a jogada já é manjada pelos adversários: Tcheco levanta na área ( “levantar” é maneira de dizer… ele PÕE a bola com precisão na cabeça de qualquer um dos zagueiros tricolores, os quais são especialistas na bola aérea ofensiva), e mesmo sabendo da jogada o desfecho quase sempre é mesmo. Gol ou defesa difícil do goleiro adversário. Léo e Rafa Marques são bons cabeceadores, mas Réver… é fora do comum. Alia seu 1,92m com uma impulsão acima da média, resultando em “chutes de cabeça” tamanha a velocidade que a bola adquire. Principalmente no Olímpico gols assim tornaram-se rotina.

As faltas frontais com certeza são os maiores algozes dos goleiros. Falta proxima a meia-lua, se o cobrador é habilidoso, só resta ao goleiro rezar. Cresci vendo gols de falta e estudando formas de não levar os gols. Mas a realidade é cruel. Daquela distância, se ela vem com velocidade e ultrapassa a barreira no máximo meio metro acima, goleiro tem que pular pelo menos para dizer que foi na bola, para não ficar fora da foto.

Existem cobradores de todos os estilos. Aqueles que cobram com direção e com força, de longa distãncia, como o Juninho do Botafogo são muito raros. Tem os que batem de uma distância mais proxima do gol, com efeito, fazendo uma parábola em que a bola não pega muita velocidade mas entra no ângulo. Zico era um representante de gala desta espécie.

Mas tem um tipo de cobrança que eu acho lindo de ver: O batedor fica 3 ou 4 passos da bola, e dirige-se a ela com o corpo inclinado e bate nela com a parte interna do pé, próximo ao dedão (mais específicamente entre o primeiro osso metetársico e a falange). A bola sai rápida e descreve uma parábola, não se elevando demais, o suficiente para vencer a barreira e matar o goleiro. Lembra a “folha seca” do saudoso Didi. David Beckham fez vários gols maravilhosos de falta cobrando assim. E para meu deleite na Azenha tem gente que faz isso… e muito bem.

Souza é marrento, muitas vezes fala demais, só que referente as cobranças de falta eu fico quieto. Se a falta é na meia-lua ou um pouco antes, apenas aguardo o obus que sai de seu pé. É certeiro e implacável. Vi ao vivo no Gre-Nal e ontém pela TV contra o Atlético-MG. Bate na bola como quem faz um carinho na namorada. Não deu chance nenhuma de defesa para o goleiro.

Não pude deixar de pensar no goleiro mineiro, no goleiro do Santo André e nos outros que foram vítimas da artilharia tricolor. Eles não devem se sentir culpados. Na azenha, nos dias atuais, a elite da bola parada no Brasil está lá. É ver para crer.

OBS: Devido as centenas de reclamações quanto a frase no final da coluna na semana passada, este espaço democrático humildemente cede a réplica para as mulheres. Aqui vai uma piada, que na minha modesta opinião é verdadeira:

“Como é que os homens fazem exercício na praia?

Encolhendo o estômago e estufando o peito toda vez que passa um biquíni.”

Abraços a todos.

2 Respostas to “NA CARA DO GOL”

  1. Gustavo Says:

    belo tema! fiquei pensando como enquadrar as cobranças do marcelinho carioca e não achei uma definição. Nesse quesito, vejo ele como um dos melhores da história.

    E o jogo botafogo x corinthians, apesar de ter sido um assalto escandaloso pró timão (e um gol de mão do botafogo que o juiz não viu), teve lances de falta primorosos. Dois golaços, sendo o do Corinthians, simplesmente fantástico: na gaveta. E o do Botafogo foi na gaveta e muito bonito também, mas foi um lance raro: foi no canto do goleiro – e mesmo assim não deu pra ele.

  2. mzerbes Says:

    “Bate na bola como quem faz um carinho na namorada”. (mais uma frase “folclórica” de meu grande amigo colunista e rasgador de canelas nas horas vagas – entre as quais incluo as minhas).

    Lembro que Lúcio Flávio é outro dos bons batedores de falta no Brasil “estilo folha seca”. Jorge Wagner também. Tcheco batia faltas desta forma também, todavia, desde que passou a sentir dores seguidas no púbis, repassou esta tarefa ao competente Souza. Mesmo assim Tcheco bate ainda algumas faltas diretas, e volta e meia marca gols (como o fez na Libertadores 2009, salvando o Grêmio de um vexame ante o Aurora/BOL no jogo fora).

    Dizem (VEJAM BEM!!!!!)… dizem… que Renato Cajá, meia esquerda recentemente contratado pelo Imortal Tricolor, também bate faltas com esta “maestria souzística”.

    Veremos – como diriam dois cegos otimistas.

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