NA CARA DO GOL

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O EXEMPLO QUE FICA

Acompanho o futebol desde a minha tenra infância. Minhas primeiras lembranças remetem aos jogos da Copa do Mundo de 1990 e do Grêmio, meu time do coração, na extinta Supercopa da Libertadores. Naqueles tempos o futebol brasileiro vivia uma entressafra de títulos e tanto as seleções quanto os clubes dificilmente superavam as equipes argentinas. Com torcidas inflamadas, pressão constante nos 90 minutos, altas doses de intimidação e violência ( também é necessário dizer que possuíam muita qualidade técnica), nossos clubes eram sistematicamente derrotados. Assim, naturalmente passei a rejeitar tudo o que vinha do Prata e esse sentimento aumentou ainda mais com a eliminação injusta na Copa de 1990. Talvez a maior que vi até hoje.

Com o passar do tempo, passei a torcer para os clubes brasileiros quando estes enfrentavam os argentinos. Qualquer um (menos o Internacional, é claro). Era jogo na televisão e torcia como se fosse o meu Grêmio. É claro que era mais um sentimento de frustração do que qualquer outra coisa. Mas ao estudar o futebol, não só dentro do campo como os aspectos culturais, passamos a ter nossas preferências e buscamos entender porque os eventos se desenrolam de uma determinada forma. E entendi porque os argentinos jogam do jeito que jogam. O “Toco y me Voy”, a garra, a busca incessante pela vitória, o jogo coletivo etc… . E passei a admirar esse modo de viver o futebol. Não esquecendo é claro de ser brasileiro.

A nacionalidade dos times passou a ser secundária para mim. Passei a prestar muito mais atenção no contexto do jogo. Nos exemplos de superação, no histórico dos times, na caminhada difícil até chegar a final. Isto é o que conta. Isto é o que vai para a história. E nos remete para a última quarta-feira.

Cruzeiro e Estudiantes. Final da Libertadores. Apesar de o Cruzeiro ter eliminado o Grêmio nas semifinais, simpatizo muito com o clube mineiro, tem um espírito guerreiro semelhante aos do sul e uma cor linda, que é o azul . Mas desta vez  torci pelos argentinos, principalmente pela falta completa de  humildade demonstrada pelos cruzeirenses antes do jogo ( exceto seu treinador Adilson) e do exemplo de vida de Juan Sebástian Verón, mei0-campo do Estudiantes.

Verón retornou ao clube que o formou em 2006, após anos vitóriosos na Europa por todos os clubes que passou. São repletas as imagens de gols e passes milimétricos feitos por ele. Muitos diziam que seria o final de sua carreira, mas foi peça fundamental para o clube quebrar um jejum de 23 anos sem títulos nacionais. Campeão mais uma vez. Perdeu a Copa Sul- Americana no final de 2008 no detalhe em Porto Alegre, tendo jogado até o limite de sua condição física. Recusou várias propostas no início deste ano pois queria jogar e vencer uma Libertadores pelo seu clube do coração, igualando os passos de seu pai que foi tricampeão da Libertadores pelo mesmo clube (1968-69-70).

Quanto ao jogo, todos sabemos como terminou. A cena que vai ficar para sempre gravada na minha memória é Verón, um jogador vencedor em todos os clubes que passou, milionário, um privilegiado do futebol, chorando copiosamente no meio do campo abraçado a seus companheiros. Parecia um novato ganhando seu primeiro título, mas mostrou que mesmo aos 34 anos é possível apaixonar-se por algo, dar tudo de si para atingir a meta, vencer as críticas ( ex-jogador, velho, etc…) , com garra e claro um futebol excepcional. Verón-pai, emocionado nas arquibancadas, e o filho levantando a taça no campo. Duas gerações da mesma família fazendo a história. Sorte de um clube que pode ter algo assim.

” Se não existe esforço não existe progresso”

Frederick Douglass

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2 Respostas to “NA CARA DO GOL”

  1. Gustavo Says:

    Parabéns, muito boa a matéria!

    Eu confesso que cheguei a pensar que Verón havia recusado propostas para ficar no Estudiantes porque ele gostaria simplesmente de acabar a carreira no seu time do coração e que, a meta do título da Libertadores não passava de um discurso motivacional.

    Seja como for, houve muita motivação e o título foi amplamente merecido por esta figura do futebol. Principalmente hoje, quando as cifras falam mais alto do que a paixão por um clube.

    Se isso ocorresse até a década de 80 seria algo normal, nada a comentar. Mas acontecer isso hoje, nesse capitalismo voraz, tem de ser aplaudido. De pé.

  2. RodriNIGHT Says:

    Excelente artigo JuniGOL, mas vou ter que me reportar a tirada referente ao sobrenome da frase final do artigo: “MAL DE DÔUGLASS!!” heheheheh

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